Paisagens neon para evitar o esquecimento
Ana Elisa Lidizia · October 2024
Exposição Coletiva: paisagens neon para evitar o esquecimento
esta e a exposição final do décimo ciclo do programa de acompanhamento crítico da casa da escada colorida com a participação dos artistas: Asmahen Jaloul, Clara Bakker, Gabriel Gariba, Gizele Lima, João Arthur Moroni, João Hisse, Julia Gonçalves, Lia Paiva, Rayane Damasceno e Vicente Baltar.
os artistas desta exposição estão criando veículos para que façamos juntos o trabalho da memória. afinal, é preciso que o passado individual seja bordado ao passado coletivo para que a experiência se realize. essas paisagens tocadas pelo neon, como se experimentando a aurora boreal bem mais ao sul do que de costume, como se pudessem interromper - comunicações mais informativas, provocam certo curto circuito provisório na banalidade dos dias e seus abandonos e deslembranças.
inventar paisagens para evitar o esquecimento é algo como chamar o nome de alguém que não temos mais certeza que sabemos pronunciar. balbuciamos repetidas vezes e enfim decidimos por um novo ritmo do dizer, uma nova eloquência que se instaura entre quem a pessoa cujo nome não sabemos de fato era e a personalidade que ela agora performa em nossa lembrança e também em nossas bocas. aquilo que foi abandonado por um gesto desesperado de debandada pode ser recuperado e os rastros que não foram computados podem agora serem lidos.
as cores, sabemos, exigem tempos diferentes. o marrom é moroso e aterrado, o amarelo é imediatista e se alastra, o rosa é perfumado e insistente. cinza é a cor da idade e, portanto, da história, azul é a cor das extremidades que o olho alcança. verde nos rodeia e, portanto, passa despercebido, o vermelho consome a si mesmo lentamente. preto tem profundidade e te engole como um sonho e branco é a presença absoluta que cega. já o neon a todos alerta. a paciência das coisas ordinárias é alongada e convocada ao movimento. o desejo é formar um presente expandido e sempre dilatando. como se pudéssemos silenciar os burburinhos todos e dedicar atenção exclusiva àquele pequeno trecho colorido em detrimento do nosso descaso corriqueiro às cores/coisas que nos cercam. um clamor à atenção, atitude máxima de generosidade.
como coloca Toni Morrison, e aqui cito de memória: nós todos morreremos e esse deve ser o significado da vida. mas fazemos linguagem, e essa deve ser a medida das nossas vidas. seja através do bilhete perdido entre os bolsos, do biombo que habitava o quarto todas as noites e que agora ocupa a casa de outra pessoa, das mesas decoradas do natal, da fotografia da mãe no centro da roda a festejar, da fogueira com os amigos, do bordado ao lado da filha que brinca, da tarde de domingo com a família no Líbano, do cachorro que dorme ao lado da banheira, da imagem de São Jorge no bar, da “fezinha” que seu pai sempre faz, do sonho acordado com um ser alado com patas. “medir as coisas pelo que elas fazem”, “aprender seu real tamanho” , esses trabalhos aqui expostos parecem dizer. medir a vida pela experiência partilhada. porque escrever, bordar, desenhar, pintar, esculpir, falar, dançar, é o que se faz quando se começa a esquecer. usar um marcador neon também é de bom tom.
ana elisa lidizia
curadora
CASA DA ESCADA COLORIDA