Os objetos do rio

Leandro Carmelini, Juliana Lira · May 2025

3 de maio recebi o convite de João Hisse para escrever esse texto. Um áudio no WhatsApp. Som de motor, buzina, vozes. João andava pela rua enquanto falava, acredito que com alguma pressa. A arte de se perder na cidade. A exposição seria aberta na semana seguinte. Eu não sabia quais seriam as obras e nem o local. Pouca informação além do convite. Semana cheia, prazos por vencer, tudo contra. Aceitei, claro. Depois ainda soube que nenhuma das obras estavam prontas. Serão expostas ainda molhadas, como objetos recém retirados do rio.

O ateliê de João fica em cima do meu consultório, no terraço da Casa do Meio. Nos intervalos da escuta, subo para jogar conversa fora, tomar café, deitar no chão. Esse trânsito se intensificou na última semana por conta desse texto, que começou antes da primeira palavra e que, agora, um dia antes da abertura da exposição, entendo que não vai terminar.

Um rio é uma queda contínua. Por isso os objetos do rio nunca permanecem inteiros. Por baixo e por dentro da cidade, os rios correm, escorrem, se jogam em outras paisagens. Tubulações subterrâneas que sobem pelas paredes até o topo para deixar novamente o rio desabar. Cai da torneira, no copo, no ralo, dentro de cada boca. Corredeiras, açudes, taças, tubos. É uma continuidade silenciosa, como um sussurro – ssssssssssss – que está sempre a soprar no nosso ouvido. A pintura de João arrasta os objetos, continuando o trabalho do rio. Restos de ângulos, fragmento de cor, pedaços de tudo.

Sempre venta por aqui. Algumas coisas balançam, outras levantam voo, outras caem. Técnicas de composição. Tudo evapora e condensa, desaba e escorre. O vento está confuso quanto a sua temperatura e direção. O céu está azul mas talvez chova. Simultaneidades agitam o olho. Cores arrastadas traçam dilemas. Os acidentes estão sempre à espreita. Uma árvore pode cair. Assimetria vertiginosa que faz tudo mexer e ficar. Vista do beiral do ateliê de João Hisse, a paisagem se multiplica: carrossel de cores e linhas. Tudo gira. Não é fácil saber onde começa e termina a cidade e as pinturas. Do terceiro andar, cheios de incertezas, caímos ao mesmo tempo para fora e para dentro.

14 de maio de 2025